defenestrada

Sob o romântico título “A Atriz que Morreu Por Amor”, uma famosa revista de celebridades inaugura sua mais deprimente capa e lança nas bancas a íntegra da carta que a “atriz e escritora” Cibele Dorsa teria enviado antes de sua trágica morte, lançando-se da janela do apartamento em que morava.

Que isso vende e que as pessoas adoram saber das mazelas humanas envolvendo “celebridades” (eu mesma, como muitos que conheço, jamais havia ouvido falar da moça) é notório. Mas até onde vai a responsabilidade dos meios de comunicação que colocam uma tragédia como uma coisa linda, um ato de “amor”, exaltando um gesto de desespero como algo louvável?

Ora, quem se mata não o faz por amor. Faz por desespero, por abandono, por solidão. O amor, a manteria viva. O amor pelos seus familiares, pelos seus filhos, pelos amigos, pela profissão, pela vida. O amor nos segura de atos de desespero.

Porque tentar tornar bonito, porque romantizar uma atitude que, evidentemente, foi fruto da doença de uma moça que, em desespero, acredita que não consegue mais viver e prefere tirar a própria vida? (não sem antes escrever uma carta atacando seus desafetos de forma que, pela sua própria atitude, fiquem expostos e sem defesa…)

Por que quem mata os outros é um bandido, mas quem mata a si mesmo facilmente se transforma em um “herói”, se antes houver enviado uma carta para uma revista de celebridades revelando suas mazelas, seu sofrimento e, porque não dizer, todo o seu ódio?

É difícil separar as coisas quando vítima e algoz são a mesma pessoa mas, ora, ninguém ouve esse filhos, que terão que viver uma vida sob esse estigma. Ninguém atenta a essas crianças que, desejando serem amadas, foram lembradas em carta – principalmente quando seu pais foram atacados por uma criatura que agiu “por amor” – mas não foram lembradas no momento em que decidiu-se por tirar a própria vida, largando-os órfãos.

Como olhar para um suicida que se promove, que ataca e expõe a vida privada de seus filhos? Onde está o amor, agora?

Porque não há amor em gestos assim. Há, sim, possivelmente, uma doença. Uma depressão, causada por todos os eventos trágicos ocorridos, um sentimentos surdo de que não há saída. A carta, última tentativa de justificar o que nem mesmo o desesperado acredita ou aceita, nada mais é do que uma forma de culpar o mundo ao redor pela própria fraqueza, pela incapacidade de continuar lutando. Fraqueza e incapacidade que a doença impinge ao suicida, fazendo-o crer que são reais.

Por que não esclarecer que depressão existe, é real, e pode ter um desfecho trágico?

Porque não vende revista.

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1 comment to defenestrada

  • Flor, depois que li vc falar sobre isso no tuíter fiquei curiosa para ler a matéria. Sábado, no truquelereiro, pude ver a revista e só tenho que concordar com vc. Acho mesmo pelo que li da carta da moça que ela estava fortemente deprimida, isso para não fazer falsos julgamentos sobre a sua estrutura psíquica de forma geral.
    O pior foi que eles mal mencionaram a depressão, a doença e ao que ela pode levar, resolveram – de maneira irresponsável – transformar a tragédia numa estória de amor linda, de Romeu e Julieta como a própria morta definiu.
    Enfim, ainda bem que temos olhar crítico para não cair nessa… mas muitos devem ter achado a coisa mais linda…

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